Adaptação dos espaços escolares durante e após a pandemia da Covid-19

Na segunda reportagem da série sobre os impactos da pandemia da Covid-19 na arquitetura escolar, fundamentada na entrevista concedida pela especialista em arquitetura escolar Doris Kowaltowski à Comunitexto, falaremos sobre a adaptação dos espaços escolares para a recepção dos estudantes com a retomada das atividades presenciais, como a adoção de equipamentos de higienização e a ampliação das salas de aula.

Desde o início da pandemia, diversos estabelecimentos adotaram os totens de álcool em gel com acionamento por pedal como medida protocolar de prevenção à contaminação com o vírus, uma vez que uma das principais recomendações dos órgãos de saúde é a higienização adequada das mãos. Com a flexibilização da abertura das escolas, esse tipo de equipamento passou a fazer parte do mobiliário escolar. 

Além dessa importante medida de adaptação dos espaços escolares, discussões a respeito de reformas na estrutura física das instituições de ensino, pensando no distanciamento entre os usuários e a ventilação adequada dos ambientes, foram levantadas. De acordo com Doris Kowaltowski, na verdade, esse assunto já vinha sendo debatido pela comunidade acadêmica voltada para a arquitetura mesmo antes do início da pandemia.

Uso adequado de dispositivos de higienização no ambiente escolar

Embora a implantação de pias e totens para higienização seja uma medida necessária para a prevenção da contaminação dos estudantes com o vírus da Covid-19 nas escolas, é importante que a direção das instituições se atente a fatores igualmente relevantes sobre sua distribuição nas áreas comuns. 

Doris Kowaltowski ressalta a importância desse tipo de objeto, mas chama a atenção para o fato de que “o ser humano necessita de sinais, principalmente visuais, para reagir adequadamente e criar hábitos corretos”. 

Segundo a autora, os totens e lavatórios devem estar posicionados em locais estratégicos que chamem a atenção dos estudantes e demais usuários do ambiente escolar, “como portas, por exemplo”, diz. 

Flexibilidade e abertura de espaços 

Outra medida protocolar contra novas contaminações com o novo coronavírus, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é que seja mantida a distância mínima de 1,5 metros entre pessoas presentes em espaços públicos, e nos ambientes escolares não seria diferente. Por isso, discutem-se formas de cumprir com essa medida com o retorno das atividades presenciais, tanto no modelo híbrido quanto posteriormente, quando a retomada se der de forma integral, por meio da adaptação dos espaços escolares com a ampliação das salas de aula, por exemplo.

Segundo Kowaltowski, mesmo antes do início da pandemia já se discutia a respeito de “espaços mais flexíveis, mais abertos e generosos, menos tradicionais”. Doris menciona sua dissertação de mestrado, defendida na década de 1970, que abordava a flexibilização dos ambientes: “nela, discuti como evitar a neutralidade projetual no ambiente escolar para incluir conceitos da psicologia ambiental, como a territorialidade, o espaço pessoal e a privacidade”. 

A autora afirma que, no Brasil, já há propostas para a adaptação dos espaços escolares a partir da união de duas salas com a remoção das paredes, com o objetivo de permitir usos mais flexíveis. Segundo ela, essa proposta “pode ser uma reforma que permitirá, durante a pandemia, um distanciamento maior para uma turma ou classe de ensino”. 

No entanto, a autora lembra que “estas reformas devem ser adotadas com cautela, em função do impacto sobre as condições acústicas nessas salas ampliadas”, uma vez que espaços maiores ampliarão, também, as distâncias entre alunos e professores e permitirão que as vozes e demais ruídos ecoem no ambiente. 

A questão da acústica após a adaptação dos espaços escolares

Sobre isso, a autora ressalta que a comunicação em sala de aula depende tanto de fatores acústicos quanto de elementos visuais. Doris ressalta que, nos novos modelos de salas de aula, todo o desenho dos ambientes, como a posição das lousas e dos quadros de apresentação audiovisual, e a localização das carteiras terão de ser repensados. 

Além disso, para que a compreensão entre todos os usuários desses espaços seja possível, segundo a autora, é necessário também repensar os hábitos de fala. Doris afirma, entretanto, que “ainda faltam pesquisas para criar condições adequadas de comunicação e evitar perdas de aprendizagem”. 

Confira abaixo as respostas de Doris Kowaltowski na íntegra:

Comunitexto: Muitos ambientes escolares têm investido em totens de higienização e pias para lavagem de mãos, mas muitas vezes não têm se preocupado com a localização destes no espaço escolar. Como esses itens devem ser posicionados?

Doris Kowaltowski: Já se sabe que a higienização é importante junto com a ventilação e as distâncias entre as pessoas em um espaço fechado, bem como o uso adequado de máscaras, mas o ser humano necessita de sinais, principalmente visuais (visual cues), para reagir adequadamente e criar hábitos corretos. Portanto, os totens e as pias devem chamar atenção nos lugares de fluxos de circulação, próximos às portas, por exemplo.

Comunitexto: Além da implantação desse tipo de objeto, discute-se a ampliação dos espaços para que os estudantes estejam a uma distância adequada uns dos outros. Que tipo de reformas a comunidade especializada na arquitetura escolar tem estudado como proposta de reestruturação?

Doris Kowaltowski: As tendências em educação indicam muitas novas necessidades para o projeto do ambiente escolar. Discutiram-se, já antes da pandemia, espaços mais flexíveis, mais abertos e generosos, menos tradicionais. A flexibilidade, como conceito, está sendo estudada há muito tempo também. A minha dissertação de mestrado dos anos 1970 discutiu o conceito e sua importância para a arquitetura escolar. Nela, discuti como evitar a neutralidade projetual no ambiente escolar para incluir conceitos da psicologia ambiental, como a territorialidade, o espaço pessoal e a privacidade. Também mostrei que espaços flexíveis podem criar a sensação de aglomeração, apinhamento (crowding). No livro Arquitetura sob o olhar do usuário, de Van der Voordt e Van Wegen, publicado pela Oficina de Textos em 2013, há uma parte importante nas páginas 179-204 sobre o conceito da flexibilidade em arquitetura, que deve ser aplicado nas reflexões sobre alterações do ambiente escolar durante e pós-pandemia. 

No Brasil existe uma tendência de propor reformas em ambiente escolar ao juntar duas salas de aula com a retirada de paredes para permitir usos mais flexíveis. Isso cria espaços mais amplos e pode ser uma reforma que permitirá durante a pandemia um distanciamento maior para uma turma ou classe de ensino. Essas alterações, no entanto, estavam antes da pandemia executadas para o uso de duas classes. Admitindo-se a potencialidade de um uso mais flexível (atividades variadas), essas reformas devem ser adotadas com cautela, em função do impacto sobre as condições acústicas nessas salas ampliadas.   

Comunitexto: Com salas maiores e/ou carteiras mais espaçadas, e com o uso das máscaras, a comunicação entre professores e alunos pode ser prejudicada. Quais são as propostas da arquitetura escolar para a questão da acústica, nesse caso?

Doris Kowaltowski: A comunicação depende da combinação de condições acústicas e visuais. Assim, é necessário mudar hábitos de fala e introduzir layouts novos, mas também a localização de lousas ou telas de apresentações visuais deve ser repensada. As perdas auditivas em função de máscaras devem ser estudadas. Com certeza, ainda faltam pesquisas para criar condições adequadas de comunicação e evitar perdas de aprendizagem.