Arquitetura Sustentável

Arquitetura escolar pós-pandemia: propostas para o futuro e realidade da educação brasileira

A situação sanitária em que o Brasil se encontra, sem previsão de retomada da estabilidade diante dos números apresentados diariamente e da lentidão na vacinação da população, deixa uma insegurança sem precedentes em todas as camadas da sociedade. A educação brasileira está enfrentando um desafio jamais visto, seja em curto prazo, pensando no retorno às aulas no modelo híbrido já adotado por diversas instituições, seja no futuro, quando for possível voltar a algum nível da normalidade que conhecíamos. É certo que a pandemia do novo coronavírus deflagrou uma série de problemáticas existentes no sistema educacional e isso também diz respeito à arquitetura. 

No artigo da série sobre os impactos da pandemia na arquitetura escolar publicado anteriormente, apresentamos as falas de Doris Kowaltowski sobre a ampliação e flexibilização dos espaços escolares. Segundo a autora, toda a dinâmica de organização das salas de aula terá de ser repensada para receber novamente os alunos, tanto em curto quanto em longo prazo. 

Doris afirma que “com ou sem pandemia, a arquitetura escolar sempre deve ter um projeto que tenha como base critérios como segurança física e psicológica, saúde e acessibilidade e inclusão”. Para finalizar a série, apresentaremos a visão da autora a respeito dos desafios que a educação brasileira terá de enfrentar no pós-pandemia e sobre projetos que outros países já começaram a adotar para escolas acolhedoras e seguras.

Projetos para o futuro

As pesquisas a respeito da reformulação dos espaços escolares, voltadas a uma arquitetura bioclimática e acolhedora, são anteriores à pandemia da Covid-19. Com a suspensão das aulas no início do ano passado em todo o mundo e a insegurança que a crise sanitária provocou, tornou-se urgente pensar em projetos desse tipo.

Assim, diversas equipes de arquitetos passaram a se dedicar a projetos baseados nos princípios da arquitetura bioclimática. Os escritórios Rosan Bosch Studio e IDOM são exemplos disso, com seu planejamento para a construção do colégio Markham, em Lima, no Peru. A cidade, segundo Doris, tem clima bastante ameno e, portanto, ideal para esse modelo arquitetônico. 

“O projeto tem como conceito o uso de espaços bastante ventilados e externos na escola”, diz a autora. De acordo com ela, a proposta “tem como base os princípios da arquitetura bioclimática e não apresenta elementos projetuais especiais pós-pandemia”. No entanto, ele conta com elementos arquitetônicos condizentes com a adequação dos ambientes a formatos “antipandemias”. Kowaltowski explica que esses elementos são: “espaços amplos, bem ventilados, muita área externa e o uso de materiais robustos que permitem limpeza e desinfecção diária intensa”.

Realidade da educação brasileira

Na visão de Doris, uma reestruturação nas escolas e na educação brasileira é imprescindível e urgente para que o retorno às atividades presenciais, pelo menos em um modelo híbrido, seja possível e, dessa forma, “perdas irreparáveis de aprendizagem de milhares de crianças e jovens” sejam evitadas. 

No entanto, a autora reconhece os desafios da educação brasileira, uma vez que muitas das escolas da rede pública têm como base projetos-padrão, e que, nesse caso, as possibilidades de adaptação dessas edificações durante e pós-pandemia devem ser estudadas. 

Grande parte desses projetos tem como padrão a construção com base em corredores centrais, o que, segundo Doris, prejudica a ventilação cruzada nesses espaços, em que o fluxo de pessoas costuma ser grande a todo momento. Além disso, a autora aponta esse como desafios para as reformas, visando a ampliação das áreas comuns, as construções em concreto e pré-fabricados. 

Uma possibilidade, planejada, inclusive, pelos profissionais que possuem projetos de arquitetura bioclimática e acolhedora, é a realização de aulas ao ar livre. Doris afirma, no entanto, que isso também seria dificultado no caso dos colégios brasileiros, em razão dos “terrenos pequenos das implantações da maioria das escolas”. 

Segundo a autora, a reformulação das estruturas das escolas brasileiras deve passar também pela jornada das aulas: “a maioria das escolas trabalha ou trabalhava em dois ou até três turnos. Isso dificulta alterações de horários de uso dos espaços com atendimento à população escolar total de cada escola”. 

Uma possibilidade, de acordo com ela, é a adoção do ensino integral, uma vez que, em instituições que seguem esse modelo, “há maior possibilidade de alterar o uso dos ambientes e diminuir, assim, a lotação nas salas de aula, laboratórios, quadra e outros ambientes fechados”. 

Em contrapartida, o desafio continua. Doris lembra que escolas que já trabalham com o ensino em período integral “já possuem uma população escolar muito grande. Operam com turnos de manhã e tarde com atividades acadêmicas e complementares em horários específicos para acomodar os alunos minimamente nos espaços disponíveis”. 

Doris Kowaltowski conclui, afirmando que possui, juntamente com um aluno do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um projeto de pesquisa a respeito dos projetos-padrão do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do Ministério da Educação (MEC) e da Fundação para Desenvolvimento da Educação (FDE) em São Paulo. Segundo a autora, “pretende-se criar conceitos projetuais para essa reestruturação de escolas públicas no Brasil e desenvolver propostas arquitetônicas em linguagem visual”.

Confira abaixo as respostas de Doris Kowaltowski na íntegra:

Comunitexto: Há propostas de modelos de escolas adaptadas para um cenário pós-pandêmico, como aquela idealizada pelos escritórios Rosan Bosch Studio e IDOM para implantação no Peru. Existe a possibilidade desse tipo de projeto se popularizar? E de propostas como esta serem aplicadas no Brasil?

Doris Kowaltowski: Este projeto, muito bonito, aliás, é localizado em Lima (Peru), com um clima bastante ameno. O projeto tem como conceito o uso de espaços bastante ventilados e externos na escola. Na realidade, o projeto tem como base os princípios da arquitetura bioclimática e não apresenta elementos projetuais especiais pós-pandemia. Os elementos arquitetônicos são: espaços amplos, bem ventilados, muita área externa e o uso de materiais robustos que permitem limpeza e desinfecção diária intensa.

Comunitexto: Você acha que há viabilidade para essa reestruturação nas escolas brasileiras, conhecendo o cenário atual da educação no país? Por quê?

Doris Kowaltowski: A reestruturação nas escolas brasileiras é imprescindível para permitir o retorno à educação presencial, ou pelo menos híbrida, e tentar evitar perdas irreparáveis de aprendizagem de milhares de crianças e jovens. Como no Brasil as escolas públicas têm como base, em muitos casos, projetos-padrão, deve-se estudar as possibilidades de adaptação dessas edificações durante e pós-pandemia. Projetos com base em corredores centrais apresentam desafios maiores, sendo que a ventilação cruzada é prejudicada. Também, em muitos casos, a construção com base em concreto e pré-fabricados nem sempre permite reformas facilmente executadas, como ampliações de espaços, por exemplo. Os terrenos pequenos das implantações da maioria de escolas também dificultam o ensino ao ar livre e o clima da maior parte do país exige sombreamento que necessita de instalação de coberturas. A maioria das escolas trabalha ou trabalhava em dois ou até três turnos. Isso dificulta alterações de horários de uso dos espaços com atendimento à população escolar total de cada escola. Nas escolas de ensino integral, há maior possibilidade de alterar o uso dos ambientes e diminuir, assim, a lotação nas salas de aula, laboratórios, quadra e outros ambientes fechados. No entanto, muitas vezes, essas escolas de ensino integral já possuem uma população escolar muito grande. Operam com turnos de manhã e tarde com atividades acadêmicas e complementares em horários específicos para acomodar os alunos minimamente nos espaços disponíveis.

No momento, estou desenvolvendo um projeto de pesquisa junto com um aluno do curso de graduação de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, para investigar essa questão com base nas evidências de projetos já publicados e analisar projetos-padrão do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do Ministério da Educação (MEC) e da Fundação para Desenvolvimento da Educação (FDE) em São Paulo. Pretende-se criar conceitos projetuais para essa reestruturação de escolas públicas no Brasil e desenvolver propostas arquitetônicas em linguagem visual.   

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