Engenharia civil

Brasil não é exemplo na segurança contra incêndios. Livro procura suprir lacuna na capacitação de técnicos

A editora Oficina de Textos acaba de lançar o livro “Dimensionamento de Estruturas em Situação de Incêndio”. Trata-se de uma decisiva contribuição para que o país possa superar suas graves deficiências técnicas no que diz respeito à segurança contra incêndios. Um dos autores é o engenheiro português João Paulo Correia Rodrigues, considerado por muitos o principal especialista mundial nesse tema. Ele compartilha a autoria com o colega brasileiro Rafael Luiz Galvão de Oliveira, que fez doutorado na Universidade de Coimbra sob a sua orientação.

O Brasil não é referência de qualidade quando o assunto é segurança contra incêndios. Os exemplos negativos estão registrados nas páginas de jornais e na internet. Quando esse tema aparece, logo surgem na memória os casos mais conhecidos e impactantes envolvendo o incêndio na boate Kiss, uma tragédia acontecida em Santa Maria (RS), em 2013, que deixou mais de 240 mortos, e a destruição do Museu Histórico Nacional, em setembro de 2018, por um incêndio devastador, que pôs a perder um acervo histórico, científico e cultural de valor inestimável. Outro exemplo foi o incêndio que destruiu o Museu da Língua Portuguesa no centro de São Paulo, em dezembro de 2015.

A repercussão do caso da boate Kiss levou à aprovação de uma legislação que obriga a inclusão de conteúdo sobre segurança contra incêndios nas disciplinas já ministradas nos cursos de Engenharia e Arquitetura. Para o engenheiro João Paulo Correia Rodrigues, esta medida não é suficiente.

“A chamada ‘Lei Kiss’ deveria obrigar as universidades a criar disciplinas específicas e compulsórias na área de segurança contra incêndios”, afirma o professor. “Só assim poderíamos ter o desenvolvimento uniforme do meio técnico no Brasil no que se refere a este tema”.

O livro Dimensionamento de Estruturas em Situação de Incêndio foi pensado justamente como contribuição para suprir essa grave deficiência na formação técnica de engenheiros, arquitetos, projetistas e outros profissionais que atuam no mercado da construção civil.

Destinada a projetistas de estruturas, engenheiros, arquitetos, técnicos em geral e estudantes, especialmente de pós-graduação, a obra foi elaborada com base na legislação brasileira e tem como objetivo auxiliar os profissionais da área a interpretar e aplicar as normas de forma correta. Para facilitar a compreensão, os autores apresentam muitos exemplos práticos de aplicação.

O livro reúne os conceitos básicos envolvendo incêndios e capítulos específicos sobre dimensionamento de estruturas de concreto, de aço, de estruturas mistas (aço e concreto) e de madeira em situação de incêndio. O leitor encontra também um capítulo final sobre a avaliação, classificação e recuperação das estruturas após a ação do incêndio.

Aprimorando a segurança contra incêndios

Os autores do livro consideram que a formação adequada de técnicos é um passo fundamental para aprimorar a segurança contra incêndios. É um passo necessário, mas insuficiente, acreditam eles.

É preciso também que haja uma normatização adequada e em diferentes áreas. Esta normatização, para João Paulo Rodrigues, deveria ser liderada pela Agência Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e contar com a participação de associações e entidades ligadas ao setor.

Igualmente importantes são as Instruções Técnicas e a Regulamentação. Há muito a fazer nesses dois campos, uma vez que no Brasil não há uniformidade entre os diferentes estados do país nestes dois quesitos.

Rodrigues defende a criação de uma regulamentação e a elaboração de Instruções Técnicas uniformes em segurança contra incêndios comuns a todo o território nacional. “Desta forma, os técnicos que projetam em um Estado poderiam utilizar o mesmo procedimento em todas as regiões do país”.

“Vale o mesmo para os produtos desenvolvidos pela indústria brasileira”, destaca o professor. Para ele, “uma regulamentação técnica em âmbito nacional traria vantagens não só em termos de qualidade dos projetos de segurança contra incêndios; produziria efeitos positivos também nos aspectos econômicos envolvendo os produtos da construção”.

Carência de laboratórios

João Paulo cita ainda outra grave deficiência do país: a falta de laboratórios credenciados para ensaios dos produtos brasileiros. “Hoje o Brasil conta com dois laboratórios em Porto Alegre, na Unisinos, no Instituto Tecnológico em Desempenho e Construção Civil (ITT) e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e um em São Paulo, no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). E o resto do país é um deserto neste aspecto”, alerta João Paulo.

A falta de laboratórios é um problema grave porque os materiais precisam ser testados em relação à segurança contra incêndios. “As empresas que atuam no Brasil são responsáveis e querem testar seus produtos. Mas, com a escassez de laboratórios, as empresas e seus produtos precisam enfrentar filas de espera de mais de um ano”.

Mudança de cultura

O último ponto no caminho para melhorar a segurança contra incêndios é, na verdade, uma lacuna mundial e não apenas brasileira. Trata-se da organização e da gestão da segurança contra incêndios. João Paulo Rodrigues explica:

“Falamos aqui da existência e boa aplicação de um plano de segurança nos edifícios, da existência de brigadistas, da aplicação de simulados e da formação das pessoas que ocupam os prédios. Tudo isso deveria ser implementado o mais rapidamente possível e de forma transversal nos mais diversos estados”.

João Paulo Correia Rodrigues lembra que, se não houver organização e gestão de segurança adequadas, as tragédias podem acontecer mesmo em edifícios projetados com os melhores sistemas de segurança contra incêndios. “É como comprar um Ferrari e não fazer a manutenção necessária ou não saber conduzi-lo adequadamente”, reforça.

“A segurança contra incêndios também começa nas pessoas, nos usuários dos edifícios. Se eles não tiverem a cultura adequada, se não houver uma evolução dos planos de segurança, a tragédia pode acontecer mesmo se tivermos os meios mais avançados”, argumenta o professor.

Os autores

Mestre e doutor em segurança contra incêndios, João Paulo Correia Rodrigues é um dos maiores e mais respeitados especialistas internacionais na área, com mais de 400 artigos publicados. Criou o mestrado em Segurança Contra Incêndios na Universidade de Coimbra, em 2007, e o doutorado sobre o tema na mesma universidade, em 2010. É professor titular convidado da Universidade Federal de Minas Gerais. Na UFMG, ele foi convidado a desenvolver a área de segurança contra incêndios no que diz respeito ao ensino, à pesquisa e à infraestrutura laboratorial.

Rafael Luiz Galvão de Oliveira é um pesquisador brasileiro, doutorado em Engenharia de Segurança contra Incêndios da Universidade de Coimbra. Sua área de pesquisa é a de estruturas e materiais em situação de incêndio. É autor de diversos textos acadêmicos relacionados ao comportamento de estruturas em situação de incêndio.

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