Dicas para quem deseja iniciar projetos de agricultura urbana

Perguntamos ao pedólogo Igo Lepsch, autor de 19 lições de Pedologia e Formação e conservação dos solos, ambos publicados pela Oficina de Textos, quais as dicas que ele daria para quem deseja iniciar projetos de agricultura urbana.

Segundo o especialista, “primeiramente procurar saber se, na Prefeitura local, existe um programa de incentivo às hortas domésticas comunitárias ou, então, consultar um engenheiro agrônomo extensionista (no estado de São Paulo, por exemplo, existe a CATI – Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo -, que mantém em todos os municípios engenheiros agrônomos extensionistas).

Esses agrônomos poderão dar orientações de como iniciar um projeto de agricultura urbana, no fundo de um quintal ou em algum terreno baldio, quintal de escola etc. – locais onde o trabalho com grupos comunitários é mais indicado. Uma questão importante para a nossa reflexão, enquanto cidadãos preocupados com o meio ambiente e a nossa qualidade de vida neste planeta, reside no fato de que, à medida que a população se torna cada vez mais urbanizada, menos contato vai tendo com o solo. Acredito que, devido a isso, temos perdido uma boa chance de investir em nossa qualidade de vida.

Veja bem: o homem evoluiu durante milhões de anos em contato direto com a natureza e seus solos. Esse ser primitivo – nosso ancestral – cultivava o solo e, com os materiais dele retirado fabricava artefatos de cerâmica, pintava não apenas as paredes das cavernas como também marcava o seu próprio corpo para se proteger dos insetos e sinalizar algumas emoções. Além disso, diz-se que uma das primeiras manifestações linguísticas foi registrada em tabletes de barro (escrita cuneiforme dos antigos povos da Mesopotâmia). Por outro lado, o homem moderno, com seu estilo de vida muito urbanizado, e em cujas veias parecem correr asfalto, cimento e aparelhos eletrônicos, vem sofrendo daquilo a que chamamos “o estresse das grandes cidades”.

Por isso, acredito que se o homem urbano conseguir passar, pelo menos algumas horas de sua vida, cuidando do solo de uma pequena horta ou jardim, ele poderá se tornar imune a essa doença que já foi considerada “o mal do século 21”. Além disso, é bom ter em mente que cultivar belas flores para ornamentar o seu lar, e nutritivas frutas e verduras fresquinhas para saborear em casa e distribuir para os vizinhos é uma boa prática para você se tornar mais saudável e socializável. Quem sabe um dia você vai oferecer uma dessas colheitas a alguém e dizer: “Pode comer sem susto, não tem agrotóxicos, pois fomos eu, minha esposa, filhos e amigos que melhoramos o solo, nele plantamos, depois regamos e colhemos; tudo isso nas hortas orgânicas do pequeno quintal de nossa casa e na comunitária que estamos cultivando nos fundos da escola de nossos filhos!”.

A poluição das metrópoles e a presença de resíduos de concreto ou pedras interferem na qualidade dos solos? 

IL: Sim. No caso da poluição, vários casos de contaminação por metais pesados vêm sendo relatados. O chumbo, por exemplo, tem sido encontrado nos solos urbanos de várias cidades, principalmente nas interioranas dos EUA onde, na primeira metade do século passado, havia automóveis que usavam como combustível gasolina com aditivos à base deste metal. Tais metais pesados podem, ainda, envenenar crianças.

É necessário lembrar que mesmo as áreas com solo coberto com cimento e o interior de residências recebem material do solo na forma de poeiras. As crianças, principalmente as que estão na fase de engatinhar, estão ora com a mão no chão, ora com a mão na boca, o que significa que sempre acabam ingerindo quantidades razoáveis de solo.

Se tal solo estiver contaminado, elas certamente também serão contaminadas. Podem ocorrer também poluições do solo urbano por contaminantes químico-orgânicos -, principalmente inseticidas, e cupincidas – muito usados nas cidades. A contaminação pode se dar do mesmo modo: as poeiras levam partículas de solo – nas quais os químico-orgânicos estão adsorvidos – para dentro dos quintais e residências onde existem crianças engatinhando. Os resíduos de concreto e pedras interferem na qualidade dos solos.

Contudo, como as hortas caseiras são feitas em áreas relativamente pequenas, esses resíduos podem ser, aos poucos, manualmente apanhados e removidos do solo. Para contornar o problema da contaminação de bebês por poeiras advindas de solos com metais pesados ou substâncias orgânicas tóxicas, o melhor é manter os solos próximos das residências sempre cobertos com vegetação e também estimular a prática de lavar frequentemente as mãos das crianças que ainda engatinham e residem perto de áreas contaminadas.

Cuidados que devem ser tomados antes de iniciar uma plantação de comestíveis nos solos urbanos

IL: É preciso enviar amostras de solo a um laboratório especializado para que elas sejam analisadas, tanto em relação ao nível de acidez, quanto ao de nutrientes disponíveis para as plantas, bem como ao teor de metais pesados. Se o laboratório acusar quantidades de metais pesados superiores às normas técnicas estabelecidas pelo Ministério do Meio Ambiente, será preferível usar a área com gramados ou plantas ornamentais, em vez de plantas comestíveis. De qualquer forma, é importante manter o solo sempre coberto com vegetação para que o vento não carregue poeiras para as áreas residenciais vizinhas.

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Sobre o Autor

Iniciativas voltadas para o manejo de solos urbanos e a utilização destes para o plantio também são comuns no Brasil. O Comunitexto entrevistou o especialista em solos Igo F. Lepsch, que tem mestrado e doutorado pela North Caroline State University, EUA, em 1972 e 1975, inúmeros trabalhos publicados e 40 anos de atuação profissional, incluindo pesquisa no IAC e em universidades, consultoria e atividade didática. Confira: