Geotecnologias e aplicações

DInSAR: inédita no Brasil, técnica de monitoramento por radares orbitais garante precisão de milímetros

O livro “Monitoramento DInSAR para mineração e geotecnia”, da Oficina de Textos, apresenta técnica de imageamento por radares orbitais que auxilia no monitoramento de deformações no terreno. A técnica de Interferometria de Imagens de Radar de Abertura Sintética (DInSAR) pode ser utilizada nas áreas de mineração, barragens hidrelétricas, taludes e aterros, petróleo e de infraestrutura em geral.

A barragem de Brumadinho (MG), que rompeu em janeiro de 2019, já vinha apresentando medidas de movimentação da estrutura. Essa foi a conclusão dos especialistas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) ao processarem dados do satélite Sentinel-1 prévios ao acidente.

Eles utilizaram a técnica DInSAR, que usa dados de radares orbitais para a aquisição de imagens e que possibilitam a medição milimétrica para monitoramento de deformações na superfície. “Um diferencial desta técnica é a possibilidade de medir áreas extensas com precisão”, explica José Claudio Mura, engenheiro elétrico do INPE e um dos autores de Monitoramento DInSAR para mineração e geotecnia.

Capa do livro “Monitoramento DInSAR para mineração e geotecnia

Os engenheiros José Claudio Mura e Fabio Furlan Gama e o geólogo Waldir Renato Paradella – também autores do livro – junto com outros especialistas do INPE, foram os pioneiros na introdução do DInSAR no Brasil, por meio de um projeto da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) entre 2012 e 2014.

A equipe do projeto monitorou a Mina de Carajás, no Pará. Durante um ano, foram desenvolvidos diversos estudos, inclusive com a utilização de refletores no campo para medir a precisão das medidas. Os estudos renderam a publicação de 11 artigos científicos em revistas renomadas.

A técnica DInSAR já é utilizada no exterior desde 2001”, lembra Fabio Furlan Gama. “Mas a atmosfera de lá é diferente da brasileira. Temos uma atmosfera muito mais úmida. Diante disso, fizemos esse primeiro estudo em região Amazônica e deu certo, provando que a técnica poderia ser utilizada no país inteiro”.

Atualmente a técnica DInSAR tem sido utilizada especialmente por algumas empresas de mineração no Brasil. Ela também traz benefícios para o setor petrolífero, medindo as deformações em áreas extensas do terreno após a extração do óleo. Pode ser utilizada também em obras de infraestrutura, tais como, em ferrovias, rodovias, pontes, metrô e estruturas de grandes dimensões, onde deformações do terreno possam estar ocorrendo direta ou indiretamente devido a estes empreendimentos. Outras aplicações importantes têm sido relatadas no monitoramento de prédios de patrimônios históricos e geleiras, monitorando não somente a movimentação, mas também a velocidade do deslocamento.

Monitoramento DInSAR para mineração e geotecnia

Primeiro livro em língua portuguesa sobre o assunto, Monitoramento DInSAR para mineração e geotecnia tem o objetivo de explicar o funcionamento, aplicações e a relevância da técnica.

Com linguagem didática, os primeiros capítulos trazem a explicação de como funciona o sensoriamento remoto por radar, polarimetria, interferometria e efeito geométricos. Depois disso, prossegue a parte do DInSAR.

Procuramos colocar tudo isso de maneira a que o leitor possa entender como é o processo de medida dessa deformação.  No final, apresentamos os resultados das nossas pesquisas em Carajás e Brumadinho”, relatam os autores.

Fabio Gama destaca ainda a importância do apoio da Visiona Tecnologia Espacial, empresa voltada para a integração de sistemas espaciais. “Sem o apoio deles, o livro não existiria”.

O livro se destina, principalmente, para profissionais de mineração, geofísica, geotecnia, geotecnologia e estudantes dessas áreas. Além daqueles interessados em monitoramento e sensoriamento remoto. Segue o vídeo da entrevista realizada com Fábio Furlan Gama e José Claudio Mura:

Os autores

Fabio Furlan Gama é engenheiro eletrônico, mestre e doutor em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Atua no INPE desde 1979. Começou na área de meteorologia e desenvolvimento de sistemas. Trabalhou com radiometria até que, a convite de um colega, começou a trabalhar numa área nova, até então, do sensoriamento remoto, com sistemas de radar. Participou do desenvolvimento de radares imageadores, como antena e sistemas de aquisição. Atuou no mapeamento da área do nordeste do Brasil para a transposição do Rio São Francisco e desde 2010 tem dedicado a aplicações de polarimetria e interferometria radar. Fabio Furlan Gama é atualmente professor da pós-graduação do INPE.

José Claudio Mura é engenheiro elétrico, mestre em Eletrônica e Telecomunicações pelo Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA) e doutor em Ciência da Computação Aplicada pelo INPE. Atua no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais desde 1979. Começou no departamento de meteorologia desenvolvendo equipamentos para recepção de dados de satélite, dados de imagens e imagens meteorológica. Participou do desenvolvimento de vários equipamentos pra análise de imagem pra transmissão de imagem por linha telefônica. Foi pesquisador visitante no Instituto Aeroespacial Alemão (DLR) entre 1992 e 1993, quando teve contato com a tecnologia de imageamento por radar de abertura sintética e desenvolveu alguns processadores para geração dessas imagens, técnica com a qual trabalha até hoje. É professor da pós-graduação em sensoriamento remoto do INPE.  

Waldir Renato Paradella foi pesquisador do INPE no campo da geologia e bolsista de pesquisa sênior do CNPq. Foi um dos pioneiros na utilização de imagens de radares em geologia no Brasil. Em seu pós-doutorado no Canadá, teve contato radar e tornou-se um entusiasta do uso dos sistemas de radar na geologia. “Foi ele que teve a iniciativa de escrever o livro. Ele queria deixar um legado de conhecimento nesta área”, contam Fabio e José Claudio. Trabalhou no INPE de 1975 até 2021, quando faleceu. 

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