Edifício Ambiental: entrevista com Joana Gonçalves

CapturarNo edifício ambiental, a economia de energia passa a ser uma consequência do ambiente de boa qualidade – explica Joana Carla Gonçalves, professora e pesquisadora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

Em parceria com Klaus Bode, do programa de pós-graduação Environment and Energy da AA School of Architecture, em Londres, Joana organizou o livro Edifício Ambiental, no qual mais de 40 profissionais e acadêmicos da área discutem esse novo conceito de edificações. Entenda a importância do tema no jogo rápido de hoje!

Comunitexto: O conceito de edifício ambiental questiona os limites das certificações e selos de eficiência energética, mas não desconsidera a importância do setor de construção civil para a conservação do meio ambiente. Por quê? O que está sendo deixado de lado no modelo atual?

Joana C. Gonçalves: Com pouco mais de uma década de uso na certificação de projetos no país e no exterior, o LEED tem tido a sua validade e o real desempenho energético dos seus edifícios bastante questionados. Estudos de uma amostra de mais de 100 edifícios norte-americanos demonstraram que 35% dos caso analisados tinham um consumo de energia maior do que os seus similares não certificados.

Pouco tempo depois, publicou-se o caso de um edifício na Carolina do Norte que consumia praticamente o dobro de energia que os vizinhos. A divulgação de casos como esses vem levando ao questionamento da validade dessa certificação em particular no seu próprio território nacional. Grande parte do problema está no fato das várias certificações aplicadas ao longo da última década (e não apenas o LEED), se basearem em previsões de projeto e não no desempenho medido nos edifícios em operação.

Assim, a última década foi marcada por críticas ao sistema LEED e ao seu uso indiscriminado internacionalmente por resultar, na realidade, em menos do que o prometido quanto ao desempenho ambiental dos edifícios.

CT: Há lacunas referentes à relação entre o projeto e os usos previstos para uma edificação?

JG: Somado ao exposto anteriormente, é clara a falta de requisitos e critérios que falem da pertinência do projeto arquitetônico no sentido de identificar aspectos da forma, da disposição dos espaços internos, da composição e operação de fachadas e da construção propriamente dita que sejam mais adequados às condições climáticas do local, além das rotinas de uso e operação dos edifícios.

Complementando, inúmeras pesquisas recentes sobre o assunto demonstraram que o comportamento do usuário em um edifício de escritórios, por exemplo, pode exercer peso quatro sobre o desempenho ambiental e energético do edifício, enquanto o projeto e os sistemas exercem igualmente peso dois. Por isso a importância da consideração de aspectos de projeto que facilitem a busca pelas condições de conforto ambiental nos sistemas de certificação, se o objetivo for promover e premiar a qualidade ambiental e o bom desempenho energético.

Nessa linha, a última versão do LEED e de outras certificações como o AQUA (de origem francesa e já em aplicação no Brasil) e o BREEAM (de origem inglesa, já adaptado para contextos fora do Reino Unido, mas não para o Brasil), oferecem pontos adicionais para o monitoramento das condições ambientais.

Porém essa medida ainda é de pouca expressão, pois tem um peso relativamente pequeno (voluntário) na certificação como um todo. Ou seja, um projeto pode receber a classificação mais alta do selo LEED, mas não corresponder ao desempenho previsto quando em uso e operação e mesmo assim, o edifício continua “certificado”, sem a obrigatoriedade da verificação do seu real desempenho energético.

Respondendo para a demanda da certificação do edifício em uso e ocupação, a organização Green Building Council dos Estados Unidos (US GBC) criou uma certificação LEED Operation and Management (LEED-OM), que avalia e classifica o desempenho ambiental e energético de edifícios construídos e ocupados, e não do projeto.

Contudo, se por um lado o LEED vem cobrir a falta de um sistema que avalie a situação real do edifício, por outro, não elimina a fragilidade da certificação LEED de projetos, que não é necessariamente colocada em cheque quando do edifício construído e ocupado. Ou seja, o LEED e o LEED-OM são dois sistemas, ou produtos totalmente independentes.

CT: Como os avanços tecnólogicos das últimas décadas influenciam nesse cenário?

JG: Esse é outro aspecto fundamental a ser considerado no âmbito do desempenho energético dos edifícios. As certificações colocam a ênfase na especificação dos sistemas prediais de condicionamento ambiental e iluminação artificial e não no desempenho da arquitetura ou, indo mais além, nas possibilidades das estratégias passivas.

Ou seja, ganham mais pontos aqueles projetos que tem supostamente mais tecnologia no seu processo de uso e operação, como no caso do sistema de condicionamento de ar mais eficiente.

Enquanto isso, inúmeras pesquisas feitas para edifícios em diferentes contextos climáticos já mostraram que só se chegará a reduções significativas na demanda energética das edificações abrindo as janelas para a ventilação natural quando possível e usufruindo da iluminação natural, sem o desperdício da iluminação artificial sobreposta.

Afinal, apesar de a eficiência dos sistemas ter seu papel no desempenho ambiental dos edifícios, deve-se lembrar que a redução da demanda energética antecede a eficiência do consumo no sucesso das estratégias em prol de um melhor desempenho ambiental.

Edifícios como o Commerzbank e outros que aparecem no livro são resultados da valorização do projeto como um todo (arquitetura e todos os complementares da engenharia), projetos esses (principalmente o de arquitetura) que são negligenciados na cultura do setor da construção brasileira.

De uma maneira geral, os exemplos de sucesso que trazemos para o livro reavivam a importância do projeto de arquitetura e de estudos técnicos de desempenho ambiental da proposta arquitetônica, que devem anteceder e alimentar o projeto dos sistemas prediais.

Assim, esses exemplos são projetos diferenciados, em que ferramentas avançadas de simulação computacional tem um papel fundamental no processo de concepção e detalhamento do projeto do edifício. Ou seja, estamos falando em tecnologia no processo de projeto para menos dependência de tecnologia na fase de uso e operação dos edifícios, com maior qualidade ambiental.

Indo além da questão energética, esses exemplos também chamam a atenção para a importância das questões qualitativas e subjetivas do conforto ambiental e da satisfação dos ocupantes, questões essas que estão no centro de uma arquitetura de melhor qualidade ambiental, de fato. Essa é a imagem do edifício de melhor desempenho ambiental, de fato – aquele que pensa no ocupante.

Tudo a ver

O livro Edifício Ambiental terá sessão de autógrafos com a organizadora Joana Carla Gonçalves, durante o Encontro Nacional e Latino-Americano de Conforto no Ambiente Construído (ENCAC/ELACAC) que acontecerá entre os dia 15 e 17 de outubro no Campus I da PUC-Campinas. O evento abre espaço para apresentação de pesquisas e discussões sobre conforto térmico, iluminação natural e artificial, acústica arquitetônica e urbana, eficiência energética, ergonomia e avaliação pós-ocupação. Veja programação completa!

Para saber mais sobre o livro, clique aqui.