Geoturismo, geodiversidade e geoconservação: Entrevista (part. 2)

Autores do livro Geoturismo, Geodiversidade e Geoconservação falam agora sobre sustentabilidade ambiental, unidades de conservação e o famigerado turismo predatório

Confira abaixo a segunda parte da entrevista com os professores Antônio José Teixeira Guerra e Maria do Carmo Oliveira Jorge.

CT: No livro, comenta-se sobre o papel das comunidades locais acerca da sustentabilidade ambiental. Atualmente como está esse cenário no Brasil?

Profª Maria do Carmo: É um cenário preocupante, sabe-se que ao longo do tempo as comunidades tradicionais criaram mecanismos para sua sobrevivência em consonância com a conservação ambiental, o que corroborou para o menor impacto dos recursos naturais. 

Os estudos e pesquisas em diferentes campos e com diferentes comunidades tradicionais mostram a importância dos saberes dessas comunidades sobre a natureza e mostram os grandes desafios a serem superados, decorrentes dos conflitos entre progresso/desenvolvimento e conservação dos recursos naturais.

Porém, em pequenas escalas temos algumas situações que tem dado certo, o sentimento de auto pertença vem sendo resgatado, a exemplo como citado no capitulo 2, em que “caçadores trocaram suas espingardas por câmeras fotográficas”.

É fato que muitas comunidades estão desaparecendo, e com os mais idosos morrem a memória histórica e cultural. Dessa forma, nós pesquisadores, temos muito o que fazer, pois os conhecimentos, as experiências dessas pessoas são ricas e precisamos estudá-las, principalmente quando falamos sobre sustentabilidade.

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Guia da Promata em trilha no sul de Ubatuba. Local destaca a importância das comunidades locais quanto ao conhecimento acerca de seu meio e ao que isso pode representar em termos de conservação. (Imagem retirada do livro. Todos os direitos reservados. Fonte: Maria do Carmo Oliveira Jorge)

 

CT: Como é a relação entre as comunidades e a criação de Unidades de conservação?

Profª Maria do Carmo: Na atualidade existe no meio acadêmico e científico, um grande debate sobre os inúmeros conflitos existentes relacionados às UCs e comunidades tradicionais. Se por um lado, a criação das UCs seja fundamental para a preservação/conservação dos recursos naturais, por outro ela é excludente, ao mudar drasticamente os modos tradicionais de vida dessas comunidades.

Turismo predatório

O geoturismo procura aproveitar e conservar os recursos naturais, com participação da população local, atraindo pessoas interessadas nas belezas naturais, história, cultura e gastronomia de uma região. Diferentemente do turismo predatório, ainda comum no território nacional.

CT: O que é o ‘Turismo predatório’?

Profº Guerra: O turismo predatório é aquele que causa diversos tipos de danos ao meio ambiente, como infelizmente acontece em diversas situações no Brasil, como é bem retratado no livro. O turismo predatório não se preocupa com a conservação do meio ambiente, podendo levar ao esgotamento dos recursos naturais, assim como à descaracterização cultural e desequilíbrio social dos habitantes de um determinado lugar.

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Símbolo do turismo predatório: Em 2014, Veneza recebeu 27 milhões de visitantes – para combater impactos, cidade aprovou taxa de 3 euros por turista durante as visitas, antes gratuitas. (Imagem: pixabay)

 

Se você perdeu ou quer conferir novamente a primeira parte da entrevista clique aqui.

Tudo a ver

geoturismo-geodiversidade-geoconservação-capaGeoturismo, geodiversidade e geoconservação: abordagens geográficas e geológicas trata dos principais atributos dessa forma de turismo, destacando a importância do patrimônio geológico, a cartografia da geodiversidade, o papel do solo, os fósseis e avançando na implementação dos conceitos em geoparks, visitação em trilhas e o papel das comunidades locais.

Ricamente ilustrado, o livro atende a estudantes, pesquisadores e profissionais de áreas como Geografia, Geologia, Turismo, Biologia, Ecologia e Hotelaria, entre outras.