Entrevista com Lucí Hidalgo

Urbanizacao-e-desastres-naturaisEla entrou na faculdade de Geografia porque era fascinada por mapas, e um estágio acabou trazendo a climatologia para sua vida. Ao longo da carreira, Lucí Hidalgo Nunes conseguiu unir os dois assuntos: dedica-se ao estudo de desastres naturais e seus impactos no meio urbano. Urbanização e desastres naturais, sua obra mais recente, é um trabalho de fôlego sobre a realidade sul-americana: ela analisa a evolução dos desastres hidrometeorológicos e climáticos, geofísicos e biológicos dessa região entre 1960 e 2009. Saiba um pouco mais sobre o trabalho da autora!

Comunitexto: Como surgiu essa pesquisa?

Lucí Hidalgo Nunes: Eu venho estudando eventos extremos e seu impacto no meio urbano há anos. Já trabalhei localmente, com pesquisas em campo, e também com bancos de dados, registros históricos, outras abordagens ligadas principalmente a desastres climáticos. Mas surgiu uma oportunidade de abordar esses eventos sob a ótica da América do Sul, para traçar um panorama mais amplo. Foi um desafio pessoal, porque é outra escala, um volume muito grande de informações e também envolve comparações entre desastres climáticos e geofísicos.

CT: E quais foram as dificuldades durante o processo?

LHN: Para realizar a pesquisa, eu visitei o Centro de Pesquisa em Epidemiologia e Desastres da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Esse centro é ligado à Organização das Nações Unidas e possui um extenso banco de dados sobre desastres no mundo. Há informações sobre todos os países da América do Sul nas últimas cinco décadas.

Quando trabalhamos com comparações, é necessário saber se foram utilizados os mesmos parâmetros para classificar cada evento. Categorias como número de afetados, por exemplo, podem variar dependendo da interpretação de cada lugar – se isso inclui pessoas que perderam sua moradia, que foram afetadas por questões econômicas, ou somente mortos e feridos. Em Louvain, há um cuidado com a padronização desses dados, que me permitiu realizar investigações de maneira adequada, tecnicamente embasada.

CT: E qual a importância dos processos de urbanização nesses eventos?

LHN: Esse trabalho tem uma ênfase muito grande nos processos de urbanização. Parece um paradoxo pensarmos que, ao mesmo tempo em que desenvolvemos ao máximo tecnologias que nos prometem conhecimento, capacidade de previsão e de atuação em casos extremos, também chegamos a um nível sem precedentes de desastres.

Uma assinatura do mundo atual é o maior número de pessoas vivendo em cidades, e quando esses eventos acontecem há mais pessoas envolvidas. Além disso, muitas cidades da América do Sul passaram por um processo de urbanização disperso, com periferias populosas e grandes fluxos de deslocamentos, locomoção, aumentando os riscos. Outra questão é a transformação do meio físico: há menos árvores, menos capacidade de infiltração de água no solo por causa do asfaltamento. Isso tudo nos mostra que estamos pouco adaptados ao meio físico em que vivemos, não interagimos bem com esse meio e a intensidade das catástrofes liga-se a esses fatores. É fundamental compreendermos a relação entre os processos de urbanização e globalização e os impactos crescentes dos desastres naturais.

Sobre o autor

Lucí Hidalgo Nunes é professora e pesquisadora, bacharel e licenciada em Geografia, mestre em Geografia Física, doutora em Engenharia (USP) e livre-docente em Geografia (UNICAMP). É membro da Academie Royale des Sciences D Outre-Mer, Bélgica, e recebeu em 2011 a Cátedra Santander. Ela trabalhou na Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e no Instituto Geológico (SMA/SP) e desde 2000 é docente do Depto. de Geografia da UNICAMP. Foi cientista visitante do Hadley Centre, Reino Unido e da Universitat de Barcelona, Espanha. Tem experiência em extremos climáticos e impactos no meio urbano, desastres naturais, percepção ambiental e divulgação de temas climáticos.