Jogo rápido com Tania M. Sausen

Tania Maria Sausen - ORGANIZADORA

Na última semana de julho, a pesquisadora Tania M. Sausen esteve na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça, para participar do “Encontro de Especialistas em Desenvolvimento de Indicadores de Redução de Risco de Desastre”, onde foram discutidos  temas como monitoramento de indicadores globais e nacionais (mortalidade, n° de pessoas afetadas, perdas econômicas e de infraestrutura,   prevenção de desastres e cidades resilientes) para a redução de risco de desastres.

Única representante do Brasil no encontro, Tania conta com sólida experiência nessa área: foi criadora e responsável pelo Núcleo de Pesquisa e Aplicação de Geotecnologias em Desastres Naturais e Eventos Extremos para a Região e MERCOSUL (GEODESASTRES-SUL) do Centro Regional Sul (CRS) do INPE no período de 2007 a 2013.

Ela é uma das organizadoras e das autoras de Sensoriamento Remoto para desastres, obra organizada em parceria com María Silvia Pardi Lacruz e que contou com a participação de mais 13 autores responsáveis pelos textos dos 9 capítulos do livro. Hoje ela conta ao Comunitexto, portal de notícias da editora Oficina de Textos, os avanços e os desafios da prevenção e mitigação de desastres no Brasil:

Comunitexto: Qual foi o objetivo da reunião realizada em Genebra?

Tania M. Sausen: Foi uma reunião para a revisão de documentos ligados ao “Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015-2030”. Este Marco chama atendção para o para o desenvolvimento de indicadores para medir o progresso na sua implantação global. Esta reunião realizada em Genebra é parte de uma série de consultas com especialistas e estudos-piloto realizados por países desde meados de 2013.

O objetivo é identificar os desafios técnicos e oportunidades, lacunas e soluções práticas para o desenvolvimento de um sistema de monitoramento para o Marco de  Sendai. Em particular esta reunião teve como objetivo avaliar  possíveis indicadores relacionados à disponibilidade de dados, sua viabilidade e abrangência, bem como explorar o alinhamento com propostas dos Indicadores de Desenvolvimento Sustentável-SDG.

Os participantes do evento foram divididos em três grupos de trabalho com base em metas globais e, em seguida, na prioridade de acção no Quadro Sendai para a Redução do Risco de Desastres 20015-2030. Parte dos  documentos analisados referem-se a questionários a serem aplicados em diferentes países para a construção de uma plataforma comum de consultas e informações sobre desastres. Esses documentos e questionários precisam ser claros e compreensíveis em todas as línguas, para possibilitar a comparação e a troca de informações entre os países.

Entre 1990 e o ano 2000, a ONU proclamou a Década Internacional para a Redução de Desastres Naturais. Nesse período foram fomentadas muitas discussões e pesquisas sobre como prevenir e mitigar desastres naturais, os resultados auspiciosos alcançados ao final da Década, levaram a ONU em 2000 a criar um secretariado permanente em Genebra, de modo a impulsionar a Estratégia Internacional para a Redução  de Desastres (ISDR).

Em 1994 foi realizada em Yokohama, Japão, 1ª Conferência Mundial sobre Prevenção de Desastres Naturais, onde foi apresentado um documento que trata da “Estratégia e Plano de Ação de Yokohama para um Mundo mais seguro (1994-2004), que representa o primeiro plano para a criação de uma política de redução de desastres com orientações sociais comunitárias. Em 2005 foi realizada a 2ª Conferência, em Kobe, também no Japão onde foi adotada a “Declaração de Hyogo e o Quadro de Ação 2005-2015: Construir a Resiliência das Nações e das Comunidades face aos Desastres”.

E agora, mais recentemente, em março deste ano foi realizada em Sendai a 3ª Conferência, onde foi adotado por 186 Estados membros, inclusive o Brasil, o “Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015-2030” acordado pela Declaração de Sendai. Na reunião de especialistas em Genebra, foi examinada a proposta técnica dos Indicadores Globais do Marco de Sendai para monitorar e resolver problemas comuns para a implantação das metas globais, implantação de banco de dados nacional sobre perdas de desastres naturais, considerando sem limite de entrada de dados.

CT: O como está a situação do Brasil? Esses planos de prevenção e sistemas de alerta vem sendo desenvolvidos aqui?

TMS: O Brasil evoluiu muito depois dos desastres registrados no Rio de Janeiro, em 2011. Em 2012 foi lançado o Plano Nacional de Gestão de Risco e Resposta a Desastres Naturais, que além de prever 15,6 bilhões de reais apontou diretrizes e articulou uma série de iniciativas regionais e locais. Mas essa é uma tarefa contínua: é necessário coletar informações, desenvolver sistemas de alerta e preparar os municípios para agir em situações de urgência.

Os desastres naturais geralmente se repetem: as enchentes, os deslizamentos, estiagem e outras catástrofes são relacionadas às condições climáticas e geográficas de uma região, por isso os sistemas de alerta e monitoramento são muito importantes.

A lei 12.608, publicada em 2012, institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil e salienta que é dever da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios adotar as medidas necessárias à redução dos riscos de desastre, compete aos municípios executar a PNPDEC em âmbito local, incorporar as ações de proteção e defesa civil no planejamento municipal e também identificar e mapear as áreas de risco de desastres.

Com isto, nos últimos anos, vários municípios em todo o país já prepararam seus planos de contingência e mais de 400 já aderiram ao Programa de Cidades Resilientes da ONU. O Brasil é o país que tem o maior número de municípios participando do programa. Estados como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, já montaram suas salas de situação para monitoramento e alerta de desastres.

 

CT: E qual a importância do sensoriamento remoto para isso?

TMS: Ele é fundamental, pode ser utilizado de muitas maneiras. Hoje em dia, nem 10% do seu potencial é aproveitado. Ele serve para o estudo de vulnerabilidade de uma cidade ou região, para a elaboração de mapas de uso e ocupação do solo, de relevo, de drenagem, de declividade, áreas urbanas, geologia, geomorfologia que são informações básicas para a identificação e mapeamento de áreas de risco e de vulnerabilidade.

Também pode ser utilizado para o monitoramento de evento de desastres como inundações e estiagem. Com o uso de dados históricos, é possível montar uma série histórica sobre um desastre especifico, uma vez que já há acervos de imagens com mais de 40 anos de dados.

Com isto é possível identificar locais preferenciais de ocorrências de eventos de desastres ao longo dos anos, bem como a estação ano preferencial para esta ocorrência e se associado a dados históricos de uso e ocupação do solo e de precipitação, obter informações sobre o comportamento de um evento ao longo de décadas. Este tipo de informação é importante para ações estratégicas de planejamento de prevenção e redução de risco de desastres.

São muitas as possibilidades, porque além das séries históricas, as imagens de satélite permitem o acompanhamento dos desastres e de suas consequências logo que ele acontece ou em alguns casos quase em tempo real. Há satélites que passam três vezes por dia sobre uma região, outros uma vez ao dia, e outros a cada 15 ou 20 dias, por exemplo, há imagens de diferentes resoluções espaciais, variando de 4 km de resolução a 0,50metros, o que permite mapear eventos de desastres de diferentes escalas de detalhamento, e inclusive utilizar de forma combinada todos estes dados, proporcionando assim maior informação sobre o evento.

Em muitas situações, como em áreas onde o acesso por rodovias e pontes ou áreas isoladas por deslizamento e inundações, o dado de sensoriamento remoto passa a ser frequentemente a  única fonte de informação para as equipes de resgate e de operação. Com acesso a essas informações a defesa civil e o governo de um município conseguem organizar o atendimento às vítimas, calcular  os prejuízos e traçar planos de recuperação muito mais realistas.

Tudo a ver
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O livro constitui-se uma ferramenta sólida de gestão de desastres: inundações e enxurradas, secas e estiagens, incêndios florestais, deslizamentos de terra e derramamentos de óleo são objeto de estudo.

As aplicações de dados de sensoriamento remoto abrangem o monitoramento e a prevenção de desastres, bem como as fases de mitigação, preparação, resposta e recuperação.

Para saber mais sobre o livro, acesse aqui.