Mariana, Brumadinho… Quem não acredita em liquefação?


Buscas na área do refeitório da Vale em Brumadinho, três meses após o rompimento da barragem (Foto: Cristiane Mattos / O Tempo)

Por Soshana Signer

Se a Vale foi surpreendida pela destruição por liquefação em Mariana, ela teve uma reação pouco razoável. Apesar dos cálculos de estabilidade da barragem mostrarem coeficientes de segurança insuficientes perante à liquefação (1,06), preferiu tratar a ruptura da barragem como um acidente excepcional e contratou consultoria internacional para especular sobre o que deflagrou a liquefação.

Como bem se sabe em Geotecnia, qualquer massa de solo granular fino, fofo e saturado está sujeita à liquefação. Caso exemplar são os rejeitos de mineração lançados nas barragens de montante. Múltiplas razões podem deflagrar uma liquefação, pouco importa. O importante é que a barragem seja estável. A situação de estabilidade insuficiente é compartilhada por inúmeras barragens de rejeitos.

Dois anos depois ocorre a ruptura de Brumadinho, “a deadly mudslide” segundo a agência SPIEGEL, e “misfortune of Brumadinho triggered horror worldwide”. O desastre de Brumadinho causou horror no mundo pela perda das vidas de mais 300 pessoas, uma devastação filmada passo a passo. Aqui, o coeficiente de segurança contra a liquefação tampouco era suficiente (1,09).

Ora, se a liquefação é um mecanismo de ruptura associado a essas massas de rejeitos, o coeficiente de segurança deve obedecer a critérios de projeto usuais em engenharia e ter valores de no mínimo 1,3 ou 1,5. Valores de coeficiente de segurança mais robustos garantiriam ainda as falhas de manutenção no sistema de drenagem, como também foi relatado.

Para ler as notícias na íntegra:

Deadly mudslide in Brazil: Internal documents burden TÜV Süd

Em CPI, empresa diz que Vale mudou cálculo para obter atestado em Brumadinho

Sobre a autora

Shoshana Signer é engenheira civil e mestre em Geotecnia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Por 32 anos trabalhou em grandes obras hidroelétricas e em projetos de desenvolvimento e planejamento ambiental, o que lhe confere conhecimento para propor livros necessários à comunidade e convidar autores a compartilhar sua importante experiência acadêmica e profissional na editora Oficina de Textos, fundada por ela em 1996.