Plantas do cerrado: sobrevivência e adaptações

Bioma apresenta condições adversas que obrigam suas plantas a desenvolverem capacidades de sobrevivências peculiares

Olho-de-cabra (Ormosia sp.) planta trepadeira.

 

As espécies de plantas do cerrado que existem hoje -como ocorreu com os outros seres vivos – são sobreviventes de um longo período de evolução que, longe de ser estável, passou por diversas transformações: períodos glaciais e interglaciais, separação de continentes, alterações drásticas no relevo, surgimento e desaparecimento de barreiras naturais, como rios e montanhas.

Tudo isso resultou no que está aí hoje e que ainda é um mosaico que reflete estas condições do passado e do presente.

“Os cerrados se caracterizam por ocorrer em áreas com solo profundo e ácido, sujeito a um regime de chuva em que a época de estiagem é bem marcada, assim, ficaram apenas aquelas espécies que possuem características que permitam sua sobrevivência e reprodução a longo prazo”, explica Vinícius C. Souza, professor de Sistemática Vegetal na ESALQ/USP, e autor do livro A Flora do Cerrado, cujo tema já resultou até em webinar

Fogo inimigo

Neste contexto, o fogo, um fenômeno natural no cerrado, representa um desafio adicional à sobrevivência das plantas do cerrado, assim como os meses sem chuva. Sem poderem escapar do fogo, as plantas do cerrado encontraram, ao longo da sua evolução, diferentes soluções para este problema, a fim de garantirem sua sobrevivência, para na próxima estação florescerem, frutificarem e produzirem novas sementes.

“Boa parte das gramíneas e outras ervas do cerrado, por exemplo, são anuais e possuem um ciclo de vida muito rápido, germinando, produzindo flores e frutos durante as chuvas e morrendo na época seca. Quando a chuva volta, as sementes estão lá no solo, prontas para uma nova (e rápida) geração”, ressalta o professor.

Outras plantas e pequenos arbustos possuem comportamento semelhante, mas não morrem como as gramíneas, mantendo-se vivos através de estruturas subterrâneas lenhosas, que podem alcançar grandes profundidades, verdadeiras árvores subterrâneas, muitas vezes. Porém, enquanto algumas plantas possuem ciclo de vida curto e outras sobrevivem apenas com suas partes subterrâneas, como ficam as árvores?

“Estas apresentam troncos suberosos, com uma casca de cortiça grossa que, mesmo que seja severamente atingida pelo fogo, será afetada apenas superficialmente, mantendo as partes vivas do tronco intactas”, afirma Vinícius.

Por causa do fogo, os brotos das árvores geralmente se queimam e perdem sua função, exigindo que outros sejam formados. Esse é um dos fatores que faz com que as árvores do cerrado sejam tão tortuosas. O outro é a ausência de uma competição pela luz, diferente do que ocorre nas florestas, onde crescer rápido e verticalmente é um fator importante na competição pela luz.

Compartilhe este conteúdo

Conhece alguém interessado? Indique.