Prevenção e mitigação de desastres pelo sensoriamento remoto

Matéria publicada em 08.01.2020

Em termos conceituais, o conhecimento das ameaças está intimamente relacionado com a avaliação da suscetibilidade, ou seja, as condições presentes em um território que favorecem a ocorrência de fenômenos com potencial para gerar danos a um sistema, como deslizamentos e inundações

Numa aplicação ampla de sensoriamento remoto na elaboração de mapas de suscetibilidade global a deslizamentos, derivaram quatro relevantes fatores controladores de deslizamentos com base em dados de sensoriamento remoto: declividade, elevação, cobertura do terreno (com base nos dados do sensor Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer – Modis) e densidade de drenagem (com base nos parâmetros de caminho e direção de fluxo obtidos do modelo digital de elevação Shuttle Radar Topography Mission – SRTM).

No caso das manchas de óleo que tomaram conta do litoral nordestino, metodologias do sensoriamento remoto foram empregadas na alternativa de conseguir detectar a área afetada e encontrar a origem do problema. (Foto: CPE tecnologia)

Outros parâmetros, como tipo e textura dos solos, foram obtidos por meio de uma base de dados não satelitários e combinados com os demais por meio de uma plataforma de Sistema de Informações Geográficas (SIG), e todos os dados foram reduzidos ou interpolados para a resolução comum de 30 m. Destaca-se que esse método, para o melhor conhecimento das tipologias dos movimentos de massa que podem ocorrer no território, deve ser conduzido apoiado em atividades de campo.

Os parâmetros derivados da altitude, especialmente declividade, elevação, orientação de vertentes etc., representam fatores-chave para a suscetibilidade a desastres geodinâmicos e hidrológicos. Segundo Florenzano (2011), no sensor HRV (a bordo dos primeiros satélites Spot) e, posteriormente, em vários outros sensores ópticos, como o Aster (a bordo do satélite Terra), dispõe-se do recurso da estereoscopia (uso da visão binocular na observação de um par de imagens para efeito em três dimensões – 3D) com as imagens de satélite.

Esses sensores permitem obter dados digitais de altitude (Modelos Digitais de Elevação – MDE) que, ao serem integrados em ambiente SIG com imagens multiespectrais bidimensionais, possibilitam a geração de imagens em 3D e também de mapas de declividade. Segundo a autora, atualmente os dados digitais de elevação são também obtidos por meio de sensores ativos, como os de raios laser Lidar (Light Detection and Ranging) e, em nível orbital, os de radar.

Mapeamento de desastres anteriores

O sensoriamento remoto também pode contribuir para a obtenção de informações sobre as ocorrências anteriores de processos que resultaram em desastres (inventários especializados das ocorrências), com aplicação em análises estatísticas de suscetibilidade e risco. É possível a identificação de cicatrizes de escorregamentos para a elaboração de mapas de inventário por meio de técnicas de fusão de imagens de sensores ópticos orbitais com resolução espacial a partir de 10 m sem, no entanto, possibilitar caracterização tipológica.

Tania Maria Sausen, pesquisadora aposentada do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) também aponta que, com base no histórico de imagens orbitais, pode-se identificar o período e o local de ocorrência das inundações, obter informações sobre a magnitude desses eventos, verificar se a frequência das inundações está se alterando em função do uso do solo e tentar identificar padrões de sazonalidade nas ocorrências.

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A classificação dos desastres naturais

A vulnerabilidade dos sistemas expostos às ameaças é uma das variáveis mais dinâmicas em uma análise de risco. Nesse sentido, as imagens com alta resolução temporal possibilitam acompanhar, por exemplo, a expansão urbana em áreas de risco, já que é possível possuir a cobertura da mesma área com intervalos menores de tempo. Essa informação é de suma importância para gestores públicos, já que subsidia a condução do planejamento urbano para tais áreas. As imagens de alta resolução espacial, por sua vez, contribuem para a identificação dos padrões de ocupação em áreas de risco.

Uma aplicação bastante necessária, mas ainda pouco explorada, para o conhecimento das populações mais vulneráveis é a composição, em base SIG, de um cadastro de moradias e famílias em situação de risco. Essa técnica pode ser bem-sucedida inclusive em assentamentos informais, nos quais as moradias podem ser identificadas por meio de coordenadas aferidas por GPS (Global Positioning System) e posteriormente cadastradas em um SIG, sendo possível correlacioná-las com imagens orbitais de alta resolução. Na prática, esse levantamento cadastral auxilia ainda na estimativa de danos potenciais e em ações de resposta.


Tudo a ver

Sensoriamento remoto para desastres constitui-se uma ferramenta sólida de gestão de desastres: inundações e enxurradas, secas e estiagens, incêndios florestais, deslizamentos de terra e derramamentos de óleo são objeto de estudo.