Arquitetura nas Pedagogias Alternativas

A aprendizagem acontece em múltiplos espaços. De fato, as primeiras lições de vida ocorrem em nossas casas, ao lado de nossas mães, em família; não em aulas escolares. A educação – poderíamos afirmar – está determinada pelo contexto onde ocorre. Aprende-se espontaneamente em uma praça, no parque, em casa, etc., o que não quer dizer que muitas vezes não seja necessário um espaço desenhado especialmente para o aprendizado; estes propiciam experiências educativas.

Não se trata de uma novidade: já há mais de um século, pessoas como Maria Montessori, Rudolf Steiner e Loris Malaguzzi questionaram não só a maneira de educar, como também o espaço em que se educa.

1_corona-school-bell-california-1935
Corona School, Richard Neutra,1935

É no século XX, com o Movimento Moderno, quando se transforma a maneira de ver o espaço escolar. Começa-se a pensar nas maneiras em que o espaço favorece ao crescimento, o desenvolvimento e o aprendizado da criança.

É então que se desenvolvem ideias como as de um ambiente que tenha maior contato com o externo (com o ar e o sol), maior transparência espacial, maior interação entre os ambientes de dentro e de fora. Começam assim as novas conquistas na arquitetura escolar, em matéria social e espacial.

École de plein-air, Suresnes, Eugène Beaudouin t Marcel Lods, 1932-1935
École de plein-air, Suresnes, Eugène Beaudouin t Marcel Lods, 1932-1935

Maria Montessori, Rudolft Steiner e Loris Malaguzzi são quem, em seus estudos pedagógicos, incluem de maneira mais concreta os aspectos do entorno físico. Ela propõe em seu método conhecer plenamente as crianças e respeitar seu desenvolvimento, para que desta forma a educação acompanhe o processo natural da vida.

Pensando o espaço neste sentido, sugere um ambiente preparado para a criança no qual deve haver elementos proporcionados a sua escala, que permitam dirigir a criança ao conhecimento. Os objetos não devem ser muitos, e sim a quantidade justa e necessária para a aprendizagem. Os elementos e suas formas devem ser simples; o espaço, fácil de manter limpo, sem elementos que se interponham ao fluir do ambiente; de tal forma, várias atividades devem poder ser realizadas simultaneamente.

Escola Apollo, Herman Hertzberger, 1980
Escola Apollo, Herman Hertzberger, 1980

O arquiteto Herman Hertzberger é um dos que, através do projeto “Escola Apollo”, interpreta estas ideias do espaço nas teorias de Montessori. Tal escola possui em suas aulas cubos móveis que são parte do piso mas ao mesmo tempo são parte do mobiliário da aula. Por sua vez, se dá grande importância ao espaço comum onde crianças de todas as idades possam se encontrar para desenvolver atividades em conjunto e aprender umas com as outras.

Por outra parte encontramos a Rudolf Steiner, pedagogo e arquiteto, que propõe outra visão da educação baseada na busca da essência do ser humano através da criatividade, da arte, do movimento e do respeito pelos ciclos da vida.

Em matéria de especialidade, propõe a arquitetura baseada em seu estudo antroposófico. Isto é, a arquitetura orgânica relacionada com a natureza, na qual se utilizam materiais reciclados e acessíveis em cada contexto. Também se refere à possibilidade de adaptar a arquitetura às condições climáticas do ambiente sem utilizar elementos artificiais.

Goetheanum, Dornach, Suiza, Rudolf Steiner
Goetheanum, Dornach, Suiza, Rudolf Steiner

Um aspecto importante na “particularidade” da pedagogia de Steiner se refere a evitar os ângulos retos, o que se relaciona com a união da educação e o espiritual. O resultado é um ambiente desenhado segundo a escala dos estudantes, fabricado com materiais rudimentares e evitando tanto as novas tecnologias como as formas monótonas.

Nestas escolas se dá muita relevância aos espaços ao ar livre, já que permitem o agrupamento e debate. Em tal sentido, os espaços para a agricultura e as práticas artísticas e desportivas adquirem um rol destacado dentro do desenho arquitetônico desta pedagogia.

Finalmente temos a Loris Malaguzzi, quem desenvolveu a pedagogia de Reggio Emilia, fundada basicamente na ideia de que as crianças têm capacidades, potenciais, e interesse em construir seu próprio aprendizado. Elas se interessam naturalmente pelas interações sociais e em relacionar-se com tudo o que o ambiente lhes oferece.

A proposta em matéria de especialidade aponta que as escolas possuam zonas contíguas, oficinas de arte ou ateliês com grande quantidade de materiais e recursos para todos as crianças: uma aula de música; uma área para o desenvolvimento motriz, expressivo e criativo do corpo; espaços verdes para a utilização do entorno (cidade, campo, montanha, etc.) como elemento didático.

Dentro da aula, as paredes costumam ser brancas, o que transfere à criança paz em seus processos de aprendizado. Por sua vez, estão previstas para a realização de exposições curtas ou permanentes das crianças e familiares.

Sala de aula de uma escola Reggio Emilia
Sala de aula de uma escola Reggio Emilia

Estes pensadores permitiram abrir um novo caminho ao desenho do espaço escolar. Hoje em dia podemos encontrar uma grande variedade de projetos arquitetônicos desta índole, baseados em muitas das teorias pedagógicas inovadoras que buscam construir escolas que transformem o espaço onde ocorre o milagre da educação.

Por exemplo, na Suécia, as escolas “Vittra”: simplesmente, escolas sem aulas, com ambientes que facilitam e permitem o aprendizado em sua forma natural.

Vittra School Brotorp, 2012
Vittra School Brotorp, 2012
Vittra School Brotorp, 2012
Vittra School Brotorp, 2012

Outro exemplo são as escolas do arquiteto Giancarlo Mazzanti na Colômbia, que refletem uma arquitetura pensada e realizada para as crianças.

Jardim de Infância Timayui, Giancarlo Mazzanti, 2011. Foto © Jorge Gamboa
Jardim de Infância Timayui, Giancarlo Mazzanti, 2011. Foto © Jorge Gamboa

O mundo continua mudando… As maneiras de nos comunicarmos, de aprender, de nos movermos evoluem… A educação não fica atrás. Responde a este movimento contínuo de transformações. A arquitetura deve ir acompanhando-as; gerar espaços propícios para a educação, espaços capazes de transmitir emoções, de gerar pertencimento, de facilitar o aprendizado em sua forma mais natural e simples.

* Publicado originalmente em Reevo, em 11 de julho de 2014. Sabine Beyer é arquiteta pela Universidad Simón Bolívar, em Caracas, Venezuela. Possui especial interesse pelo tema da arquitetura escolar, que foi tema do seu projeto final de graduação.

Compartilhe este conteúdo

Conhece alguém interessado? Indique.