Geografia e meteorologia

Riscos híbridos: entrevista com Francisco Mendonça

A sociedade sempre esteve exposta a riscos das mais variadas origens e isso não é nenhuma novidade. No entanto, nota-se que as consequências dos eventos catastróficos das últimas décadas têm atingido cada vez mais pessoas, e os fatores que levam a esses acontecimentos estão cada vez mais inter-relacionados. A isto chamamos de riscos híbridos. 

De acordo com Francisco Mendonça, organizador de Riscos híbridos, nenhum problema relacionado aos desastres que acompanhamos com frequência no noticiário é um problema isolado. Para ele, é necessária a compreensão de que os riscos são multifacetados e complexos, e que, além disso, são construções sociais, uma vez que os fenômenos somente se tornam riscos se tiverem algum impacto nas sociedades humanas.

O livro Riscos híbridos chegou à livraria técnica Ofitexto em um momento em que os riscos aos quais a humanidade está frequente e continuamente exposta estão em ebulição, escancarando cada vez mais as desigualdades presentes nas sociedades. 

A obra é pioneira e traz uma abordagem inédita, construindo um novo campo de pensamento sobre questões cruciais para os nossos dias no que diz respeito ao meio ambiente e às desigualdades sociais.

À Comunitexto, Francisco Mendonça falou sobre a concepção de riscos híbridos e sobre suas principais motivações para a elaboração da obra. Confira a entrevista na íntegra a seguir. 

Entrevista com Francisco Mendonça, organizador de Riscos híbridos

Comunitexto (CT): Qual foi a principal motivação para o desenvolvimento de Riscos híbridos?

Francisco Mendonça (FM): A problemática ambiental agravou-se sobremaneira na última década, especialmente em países como Brasil, onde as políticas de cunho ambiental que registravam importantes avanços foram profundamente vilipendiadas nos últimos cinco anos, aproximadamente. A luta em defesa do meio ambiente tornou-se algo vital, colocando-se como uma das premissas fundamentais à permanência da humanidade sobre este planeta. Toda essa situação explicita que a problemática é de altíssima complexidade, que temos de pensar em fenômenos específicos não em sua manifestação em si mesmos, e sim como processos complexos e multifacetados. Os riscos socioambientais – ditos naturais, sociais e tecnológicos – só se tornam importantes porque são construtos sociais e não existem somente numa destas dimensões, integram-nas, e por isso são híbridos.

CT: Quais são os principais destaques da obra?

FM: Toma maior relevância a perspectiva socioambiental que sustenta a ideia principal da obra, ou seja, a condição de hibridação dos riscos na atualidade. Obviamente a associação dos riscos às vulnerabilidades sociais explicita que o agravamento dos impactos das ameaças e perigos sobre as populações está diretamente ligado à pobreza das mesmas. Assim, a busca e implementação de medidas técnicas e tecnológicas não logra, em geral, sucesso sem que a promoção da equidade e da justiça social esteja também envolvida nos processos de gestão dos impactos derivados dos riscos. A obra traz, nos dois primeiros capítulos, concepções gerais dos riscos e das vulnerabilidades, notadamente dos riscos híbridos, e avança para exemplos relacionados a inundações, eventos climáticos extremos, movimentos de massa e sua dimensão social.

CT: O que são riscos híbridos? Fale de maneira resumida sobre cada um dos tipos de riscos que o livro aborda.

FM: Como colocado anteriormente, os riscos híbridos apelam para a necessária compreensão dos riscos como fenômenos multifacetados e complexos. A compreensão deles como híbridos está embasada na concepção de que os riscos são construções sociais, exatamente pelo fato de que não há risco, da maneira como abordado na obra, para a natureza ou para a dimensão não humana do planeta. Mesmo tendo um fenômeno concebido como desencadeador da ameaça na natureza ou na tecnologia, ele somente se torna um risco se impactar as sociedades humanas, por isso riscos híbridos. O livro coloca em evidência exemplos de riscos associados a inundações urbanas, eventos hidroclimáticos extremos, movimentos de massa, vulnerabilidade social, remoção de populações de áreas de risco etc.

CT: O que é sindemia e como esse conceito se relaciona aos riscos híbridos?

FM: A concepção de sindemia tomou destaque recentemente no contexto da pandemia da Covid-19. Trata-se, de maneira geral, da intensificação dos sintomas da doença por decorrência de outros fatores sociais e individuais que não a doença em si, o que impõe a compreensão de sua manifestação como resultado de um conjunto de fatores atuantes no seu agravamento. Para além de problemas dos organismos de indivíduos (comorbidades, doenças preexistentes etc.), as condições de vida (pobreza, miséria etc.) e o modo de vida também concorrem para o agravamento da doença, tornando-a de mais difícil controle e mais fatal. A concepção de hibridismo dos riscos pode ser assim concebida, de maneira análoga, ou seja, é a partir de um fenômeno desencadeador, ao ser somado a outros fatores também graves, que os riscos tornam-se mais impactantes.

CT: A que público se destina o livro? Ele pode ser adotado como bibliografia complementar em cursos de graduação? Em que áreas?

FM: O livro destina-se ao público em geral; a linguagem trabalhada nos textos facilita a compreensão mesmo para pessoas leigas no assunto. Trata-se de uma obra que, na sua maior parte, constitui, de certa maneira, uma introdução à análise dos riscos a partir de uma perspectiva holística, integradora, complexa e relacional. Riscos híbridos pode ser adotado em vários cursos de graduação, e mesmo de pós-graduação, nos campos de Engenharia Ambiental, Geografia, Geologia, Arquitetura e Urbanismo, Sociologia, Políticas Públicas, Engenharia Florestal, Recursos Hídricos etc.

Riscos híbridos é lançamento na Ofitexto

Lançado no último mês de junho, Riscos híbridos está disponível para aquisição na versão física em nossa livraria técnica. 

Para saber mais