Avaliação de impacto ambiental: Entrevista

Luis Enrique Sánchez (USP) fala sobre a criação de programas socioambientais

Esec da Guanabara. (Imagem retirada do arquivo do ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade)

 

Um bom projeto ambiental deve ter objetivos claros, explica o engenheiro e professor Luis Enrique Sánchez. Com larga experiência na preparação e análise de estudos de impacto ambiental, ele já acompanhou histórias de sucesso, mas também viu muitos projetos inconsistentes, que precisaram de boas reformulações para funcionar.

Nesta entrevista ele nos conta quais as maiores dificuldades de um planejamento ambiental de sucesso.

Comunitexto: Quais os problemas mais comuns na criação de programas socioambientais? Onde os profissionais mais erram?

Luis Enrique Sánchez: É preciso distinguir a origem e a motivação do programa para mencionar os problemas mais comuns. Nos programas que decorrem do licenciamento ambiental, os principais problemas são: 

  • objetivos vagos ou demasiado amplos;
  • falta de recursos humanos, físicos ou financeiros para uma adequada execução do programa;
  • dificuldade de articulação com outros agentes, como prefeituras;
  • e falta de acompanhamento adequado para aferir se os resultados foram atingidos.

Neste último caso, muitas vezes há mais preocupação – inclusive dos órgãos ambientais – com a entrega de um relatório do que com a demonstração de resultados concretos.

No caso de programas de iniciativa própria das empresas, provavelmente os maiores problemas estão relacionados à vinculação entre os programas e os impactos mais significativos do negócio.

Algumas empresas desenvolvem programas muito bons de responsabilidade social, mas não focam nos impactos de suas próprias atividades sobre as comunidades locais.

CT: Um programa que começou mal pode ser “consertado” no decorrer do processo?

LES: pode, claro. Pode ser necessário rever os objetivos, definindo com clareza onde se quer chegar. Alguns programas têm duração predeterminada, por exemplo, durante a construção de um empreendimento, enquanto outros não têm prazo para terminar.

Principalmente para estes últimos, é importante avaliar periodicamente seu andamento e seus resultados, e inserir correções ou melhorias. A avaliação crítica é uma ferramenta de melhoria e permite “consertar” algo que começou errado.

CT: Quando podemos afirmar que um programa deu certo?

LES: quando podemos demonstrar resultados concretos. Um programa deve ser avaliado em relação aos seus objetivos. Ele “dá certo” quando os objetivos são atingidos. Ocorre que, com objetivos mal formulados, avaliar se deu certo ou não passa a ser um julgamento subjetivo – e isso é ruim para a empresa e ruim para as partes interessadas (os stakeholders). A avaliação passa a ser feita por cada um e em relação às suas expectativas, não em relação a objetivos negociados entre empresa e partes interessadas. Imagine um questionamento judicial sobre o cumprimento ou não de determinado compromisso – sem evidências ou provas de atendimento, cabem interpretações conflitantes. É melhor investir em bom planejamento do que em correção e argumentação.

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