Kilauea, o “meu” Vulcão

O autor Pércio M. Branco relata a experiência ao visitar um dos vulcões mais antigos do mundo e que recentemente chamou a atenção dos noticiários devido a sua atividade

Houve uma época da minha vida em que eu ansiava por ver um vulcão. Eu não conhecia nenhum e queria ter esse prazer. Mas, não me bastava conhecer qualquer vulcão. Eu queria um que estivesse em erupção! Isso naturalmente me impunha pelo menos quatro sérias dificuldades.

  1. O Brasil não tem vulcões.
  2. Seria preciso esperar que um vulcão não muito distante entrasse em erupção.
  3. Eu precisaria me deslocar logo para lá, antes que ele se aquietasse.
  4. Eu precisaria descobrir como chegar até ao local, ficando a uma distância segura do vulcão. Era, portanto, uma missão impossível.

Um dia, descobri o livro Turismo de Aventura em Vulcões (Ed. Oficina de Textos, 2008), de Rosaly Lopes. Pronto, pensei, agora eu saberei como ver um vulcão em atividade.

Rosaly Lopes é uma vulcanóloga brasileira que trabalha na Nasa e que identificou 71 vulcões ativos na superfície de Io, satélite de Júpiter. Ela conhece a fundo os vulcões da Terra e seu livro é um primoroso roteiro sobre essas atrações (para ela e para mim, pelo menos) geológicas.

Kilauea de dia. (Foto: Pércio M. Branco)

 

Comecei a ler o livro com muita atenção e quando cheguei ao capítulo sobre os vulcões do Havaí constatei que não precisava prosseguir a leitura. Eu achara o “meu” vulcão e ele se chamava Kilauea.

O Kilauea está hoje nos noticiários, porque sua lava destruiu, desde o início de maio, dezenas de casas e obrigou alguns milhares de pessoas a abandonar suas moradias. Descrito desse modo ele parece ser um horror, mas não é bem assim, tanto que, embora sua atividade tenha aumentado muito desde o início de maio, o Parque Nacional dos Vulcões, onde ele se encontra, só foi fechado no dia 10. 

Normalmente, ele tem uma atividade pouco intensa, que permite que seja visitado sem preocupação. Como os demais vulcões havaianos, o Kilauea tem baixo índice de explosividade, o que significa que suas erupções não são aqueles acontecimentos catastróficos comumente ligados a esse fenômeno geológico. Esse, aliás, foi um dos motivos que me fizeram eleger o Kilauea o meu vulcão.

Kilauea ao anoitecer. (Foto: Pércio M. Branco)

 

Para dar uma ideia, eu o visitei com minha mulher e a família do meu filho, incluindo dois netos ainda crianças.  Outro motivo foi que o Kilauea, informou-me Rosaly Lopes, está em erupção continua desde 1987!  Uau!  Isso era incrível! Jamais eu imaginara que um vulcão pudesse permanecer ativo por tanto tempo ininterruptamente. Isso significava que eu poderia ir lá sem pressa que ele estaria à minha espera, pelo menos borbulhando.  E assim foi.

Como acontece com muitos vulcões, as sucessivas erupções do Kilauea foram formando um cone vulcânico cada vez mais alto, até que uma delas fez ruir toda aquela estrutura. Assim, o que era um cone tornou-se uma caldeira, que mede 4,0 x 3,2 km por 120 m apenas de altura. O maior jornal de Porto Alegre informou recentemente que ele mede 1.274 m de altura, mas é um equívoco; esta é sua altitude, ou seja, sua localização acima do nível do mar.

O Kilauea não foi o único motivo que me levou ao Havaí. Houve outros e um deles é que, ora bolas, ele está no Havaí, com suas lindas praias, suas ondas enormes, sua música, seus luaus e sua história. A distância é muito grande, é verdade. Miami, a capital dos Estados Unidos mais próxima do Brasil, fica a mais de nove horas de voo de Porto Alegre, onde eu moro. Mas, é preciso ir ao outro lado dos Estados Unidos, lá na costa Oeste. E lá ainda pegar um avião até Honolulu, a capital do Havaí, trecho que dá mais umas cinco horas de voo.  Aí, você terá chegado ao Havaí, mas não aos vulcões ativos do arquipélago.

Kilauea à noite. (Foto: Pércio M. Branco)

 

É que eles estão não na ilha de Oahu, onde fica a capital, e sim na Big Island, a meia hora de voo dali. Mas, valeu a pena! Ah, valeu, sim. Não só pelo Kilauea (não deu tempo de visitar o Mauna Loa e o Mauna Kea, outros dois vulcões da Big Island), mas porque aproveitamos para visitar também outros locais maravilhosos, como a praia de Papakolea, com sua incrível areia verde, devida não à presença de quartzo, como em praticamente todas as praias do mundo, mas de olivina, um mineral muito diferente.

Portanto, se você quer ver um vulcão em atividade, aprender muito sobre essa força da natureza e ainda curtir belas paisagens, vá ao Havaí.  E traga de lá pelo menos um CD de Israel Kamakawiwo-ole.

Tudo a ver

Pércio M. Branco é autor do livro Guia de redação para a área de Geociências – 2ª ed. São 25 capítulos sobre as regras de elaboração de textos técnicos. A nomenclatura de minerais recebe atenção especial: traduções, grafia correta, uso do hífen em nomes compostos, minerais com dupla denominação e nomes reconhecidos pela International Mineralogical Association.