Joana Gonçalves fala sobre o livro Edifício Ambiental

No livro Edifício Ambiental, arquitetos e pesquisadores discutem novo conceito em edificações. As contribuições de 42 engenheiros, arquitetos e pesquisadores renomados trazem ao leitor os projetos e práticas mais avançados em termos de qualidade ambiental no Brasil e no exterior. A proposta dos autores é discutir, de maneira crítica, questões como desempenho, qualidade e eficiência energética – afinal, alguns dos parâmetros ambientais, como acesso ao sol e aproveitamento da luz natural, comunicação visual entre interior e exterior e circulação de ar fresco, têm o potencial de transcender limites quantitativos de desempenho e dar qualidade e autenticidade à arquitetura. Saiba mais sobre o livro nesta entrevista exclusiva com Joana Gonçalves.

Comunitexto: Um dos diferenciais de Edifício Ambiental é o grande número de projetos ilustrados, gráficos e desenhos. Qual o objetivo de vocês – você e Klaus Bode – ao organizar essa obra?

Joana Gonçalves: Inicialmente, o nosso objetivo foi atingir o número maior de profissionais relacionados ao projeto, construção, ocupação e gerenciamento de edifícios, além de economistas e agentes do mercado imobiliário. Em suma: todos que estão, de alguma forma, associados ao tema das edificações, incluindo estudantes de arquitetura e engenharia. A importância de trazer uma ampla gama de projetos foi passar uma mensagem clara de que o Edifício Ambiental é uma alternativa às pré-concepções formais do mercado da arquitetura. Estamos falando de um novo modelo de arquitetura e construção para responder aos desafios de presente e de um futuro de aquecimento da temperatura das cidades e escassez de recursos naturais, com especial atenção à problemática energética.

CT: Qual a diferença da abordagem deste livro em relação à questão ambiental?

JG: Reconhecendo o importante papel de edifícios existentes no aprendizado de aspectos qualitativos e quantitativos do desempenho ambiental, o conteúdo do livro contém a apresentação de experiências valiosas de projeto, assim como do uso e da operação de edifícios existentes, incluindo alguns dos mais relevantes exemplos de uma nova geração do contexto internacional.

Ao contrário de repetir a narrativa desgastada e superficial do discurso mercadológico do “edifício sustentável”, “verde” ou “ecológico”, essa publicação convida o leitor à elaboração de pensamento crítico e circunstanciado tecnicamente sobre aspectos essenciais do projeto e da ocupação de edifícios. Questões de desempenho, qualidade e impacto ambiental das edificações são abordadas no contexto do edifício e do ambiente construído como um todo.

CT: As alternativas que temos hoje colocam muita ênfase na “alta tecnologia”, como por exemplo, os sistemas inteligentes de refrigeração. Como você vê essa questão?

JG: Com respeito à “alta tecnologia” dos sistemas prediais, apesar de a eficiência dos sistemas ter seu papel no desempenho ambiental dos edifícios, deve-se lembrar de que a redução da demanda energética antecede a eficiência do consumo quando se leva em conta o sucesso das estratégias em prol de um melhor desempenho ambiental. Por isso, a importância primordial do entendimento do projeto como um todo, incluindo a influência dos usuários e até mesmo o impacto das mudanças climáticas, e não apenas o conhecimento do desempenho térmico de um determinado componente construtivo, ou energético dos sistemas, exclusivamente. Dessa forma, o melhor desempenho ambiental requer uma abordagem de projeto que antecipa questões do edifício em uso e que evita soluções pré-concebidas.

One Airport Square, na cidade de Acra, África.

Como exemplo disso, os vários projetos discutidos nessa publicação, como a sede do Commerzbank em Frankfurt, a Assembleia Nacional do País de Gales em Cardiff, o Velodrome das Olimpíadas de Londres, o edifício de escritórios One Airport Square, na cidade de Acra, em Ganah, na África, e outros, constatam o sucesso de projetos que integram arquitetura, tecnologia e desempenho ambiental, assim como a influência determinante da ocupação no sucesso do desempenho ambiental de edifícios. Em suma, esses edifícios nos mostram que é possível ventilar e iluminar naturalmente o ambiente de trabalho em cidades dos mais variados climas, incluindo aquelas em clima quente e úmido, como Ganah, na África.

Por ultimo, é importante reconhecer a força de transformação cultural e de valor que tem os ícones da arquitetura. No caso do Commerzbank, por exemplo, 10 anos após a sua conclusão, edifícios construídos posteriormente no seu entorno passaram por processos de reforma da fachada, com a finalidade de possibilitar esquadrias que abrem para a ventilação natural em todo o edifício. Nesse caso, estamos falando de edifícios que foram construídos após o Commerzbank e com fachadas cortinas do tipo “caixa de vidro”, mas que depois de constatarem a força da imagem do Commerzbank – o edifício de escritório naturalmente ventilado – passaram a querer a mesma imagem, para levantarem seu valor.

Tudo a ver

O livro Edifício Ambiental aborda o desempenho, a qualidade e o impacto ambiental das edificações, explorando tópicos como ventilação natural, tecnologias de climatização e seleção de materiais; os impactos no clima das cidades provocado pelo ambiente construído e pelo adensamento urbano; ferramentas e métodos de simulação do desempenho ambiental; projetos e tecnologias aplicados em edifícios existentes; habitações sustentáveis para populações de baixa renda e o sistema de certificação ambiental de edifícios.

O sumário do livro está disponível on-line. Clique aqui para consultá-lo.